É a suspeita mais repetida em qualquer aldeia com um projeto à porta: primeiro arde, depois aparece o parque. É uma afirmação testável — a área de cada central está publicada, e as áreas ardidas também. Sobrepusemos as duas em todo o continente. Esta página diz o que saiu, incluindo a parte que não dá jeito a ninguém.
Mostrar que uma central solar assenta sobre uma mancha ardida não prova nada por si só. 14,8% de Portugal continental ardeu pelo menos uma vez entre 2014 e 2025. Num país assim, encontrar centrais em terreno ardido é o que se espera mesmo que ninguém escolha terreno ardido.
A pergunta com resposta é outra: as centrais assentam em terreno ardido mais vezes do que a terra à volta delas ardeu? Se sim, alguém está a escolher. Se não, é geografia. Foi essa a comparação que se fez.
Não o ponto no meio: o polígono. 719 centrais solares e 239 parques eólicos, do registo de licenciamento da DGEG e do OpenStreetMap. Quem só tem um ponto publicado fica de fora — não se mede uma sobreposição a partir de um ponto.
Os polígonos oficiais dos incêndios de 2014 a 2025, ano a ano, no país inteiro — mais de vinte mil manchas. Nenhuma foi simplificada para este cálculo.
Interseção geométrica, central a central, incêndio a incêndio. Guarda-se a percentagem da área da central que ardeu e em que anos — e compara-se o ano do fogo com o ano de entrada em serviço, para separar «ardeu e depois construiu-se» de «construiu-se e depois ardeu».
O solar constrói-se sobretudo no sul, e o sul arde pouco; o eólico faz-se em cumeada, e a cumeada arde muito. Comparar cada tecnologia com a média nacional dá uma resposta errada. Por isso mede-se também quanto ardeu da terra num raio de 20 km à volta de cada central, numa grelha de 1 km sobre o território continental, e é contra esse valor que a central é avaliada.
A área solar licenciada em Portugal assenta em terreno ardido a 0,94× a taxa a que ardeu a terra à sua volta; o eólico, a 0,98×. Um valor abaixo de 1 significa menos terreno ardido do que a própria vizinhança teria dado por acaso. Nenhuma das duas tecnologias mostra, à escala do país, preferência por terreno queimado.
Publicamos isto porque a alternativa seria escolher os números que assentam na narrativa — que é precisamente aquilo de que acusamos, e com razão, os relatórios da consulta pública. Um mapa que só confirma quem o faz não serve para nada.
Vale a pena registar o que o eólico revela: 185 dos 239 parques eólicos tocam uma mancha ardida, e 35,8% da sua área total já ardeu. Não porque alguém escolha cicatrizes, mas porque o eólico ocupa exatamente o tipo de terreno que arde: cumeada de mato, sem gente. O que a serra tem de perigoso é o que a torna atraente para quem a quer licenciar.
A média nacional fecha a porta a uma teoria geral. Não fecha a porta a casos concretos — e há-os. Estas são as centrais solares cuja área ardeu muito acima do que ardeu a terra à volta delas: a última coluna é quantas vezes mais. Uma central inteiramente sobre uma mancha de 2022, numa zona onde 2% do território ardeu, não é coincidência banal.
| Central | Área | Ardida | Vizinhança | Excesso | Cronologia |
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Isto é um ponto de partida, não uma acusação. Uma coincidência no espaço e no tempo mede-se; uma causa investiga-se. O passo seguinte para qualquer um destes casos é documental — quando foi pedida a licença, quem era dono do terreno antes do incêndio, o que diz o processo de investigação do fogo. Nada disso está nesta página, e enquanto não estiver, não há aqui nenhuma acusação a ninguém.
De todas as centrais solares que tocam uma cicatriz, 26 entraram em serviço depois do incêndio que passou pelo seu terreno, 27 já lá estavam quando o fogo chegou, e 62 não têm data de entrada em serviço publicada — dessas, simplesmente não se pode dizer.
| Central | Incêndio | Em serviço | Área ardida | % da central |
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A leitura inocente desta lista é a mais provável e a mais aborrecida: terreno ardido é terreno barato, desarborizado e sem oposição de ninguém — exatamente o que um promotor procura. Isso explica a lista inteira sem precisar de nenhum criminoso. Explica-a, note-se, sem a tornar aceitável: significa que arder valoriza a serra para quem a quer ocupar.
O resultado completo — as 300 centrais e parques que tocam uma mancha ardida, com a sobreposição por ano de incêndio, a taxa local e o excesso de cada um — está publicado em bruto. As fontes são as mesmas do mapa.