«Verificado» aqui não quer dizer que alguém carimbou os dados. Quer dizer que quatro registos independentes, feitos por entidades que nunca falaram umas com as outras, dizem a mesma coisa — e que se mediu a distância entre as respostas.
Não existe em Portugal uma lista oficial única que diga «estes são todos os aerogeradores, nestas coordenadas, confirmadas no terreno». Existem duas listas, feitas por razões completamente diferentes, por gente que nunca falou uma com a outra. É precisamente isso que as torna úteis.
Uma é feita por voluntários que olham para imagens de satélite. A outra é feita pelo Estado, porque quem produz eletricidade precisa de licença. Nenhuma delas basta sozinha. Juntas, verificam-se uma à outra.
O OpenStreetMap é a Wikipédia dos mapas. Qualquer pessoa abre o editor, carrega a imagem de satélite, reconhece a assinatura inconfundível de um aerogerador — a torre, as três pás, a sombra comprida — e marca um ponto com as etiquetas power=generator e generator:source=wind. Há também quem mapeie no terreno, com GPS.
E quem é que confirma? Ninguém, oficialmente. É a resposta honesta. A qualidade do OpenStreetMap não vem de uma autoridade que carimba: vem de tudo ser público e reescrevível. Cada edição fica registada com o nome de quem a fez e a data, e qualquer pessoa pode ir ver a mesma imagem e corrigir ou apagar o que estiver errado.
Ajuda que um aerogerador seja dos objetos mais fáceis de identificar do mundo: enorme, isolado, muito contrastado e com uma sombra que não se confunde com nada. Edifícios são mal mapeados a toda a hora; aerogeradores, raramente.
O que o OSM prova: que ali está, fisicamente, uma torre. Sozinho, continua a ser uma afirmação por confirmar. É dele que vêm também os contornos dos parques, os operadores, os modelos e as alturas — coisas que a DGEG não publica. É recolhido pela API Overpass, numa caixa entre 39,85° e 40,30° de latitude norte e entre 7,20° e 7,90° de longitude oeste, à volta da serra.
A Direção-Geral de Energia e Geologia é o regulador do setor. Toda a central que produz eletricidade precisa de licença, e a DGEG publica essas licenças num serviço de mapas aberto: um polígono por bloco de aerogerador, com número de processo, proprietário, potência em kW e data de entrada em exploração.
Aqui há, de facto, quem confirme: o Estado, como condição para a central poder funcionar. Não é a afirmação de um voluntário — é um registo legal com o nome do promotor.
O que a DGEG prova: que existe uma licença naquele sítio. Não prova que a obra foi feita. Papel não é betão.
INEGI e2p — Energias Endógenas de Portugal, mantido pela Universidade do Porto. Um ponto por central, sem posições de aerogeradores: nome, promotor, potência instalada, ano. É compilado a partir de informação dos promotores e da DGEG, mas mantido em separado — por isso, quando concorda no nome e na potência, é confirmação a sério e não uma cópia. Serve apenas para corroborar parques; nunca coloca nada no mapa.
APA / SNIAmb — a Agência Portuguesa do Ambiente. Todo o projeto sujeito a Avaliação de Impacte Ambiental entrega um polígono da área de estudo. É a única fonte pública que dá uma forma real aos projetos ainda por construir, em vez de um adjetivo de comunicado de imprensa. É daí que vêm os projetos planeados desenhados no mapa.
| Fonte | O que prova | O que não prova |
|---|---|---|
| OpenStreetMap | Que existe ali uma torre, visível em imagem de satélite | Que é legal, ou que alguém com autoridade confirmou a posição |
| Registo da DGEG | Que existe uma licença, com número de processo e proprietário | Que a obra chegou a ser feita — a licença é papel |
As duas fraquezas anulam-se. Um voluntário a decalcar imagens de satélite noutro país e um técnico a arquivar polígonos de licenciamento em Lisboa não têm como copiar um do outro: para o cruzamento enganar, teriam de estar ambos errados no mesmo sítio, ao metro. É isto que separa uma verificação de uma afirmação.
Para cada aerogerador do OpenStreetMap, calcula-se a distância a todos os blocos do registo da DGEG e guarda-se o mais próximo.
A tolerância é uma escolha, e por isso fica declarada: o polígono da DGEG é um bloco de licenciamento e o ponto do OSM é a torre decalcada — não foram feitos para coincidir ao centímetro.
O desvio mediano entre as duas fontes é de 1 m; o pior par está a 232 m. Metade dos pares está a menos de um metro — menos do que a largura da base da torre que ambos descrevem.
5 aerogeradores do OSM não têm licença a menos de 250 m. No mapa aparecem com a posição assinalada como não verificada — não são escondidos nem contados como confirmados.
Uma honestidade sobre o número máximo: os 232 m estão limitados pela própria tolerância. Acima de 250 m nada é contado como coincidência «má» — é contado como não coincidência. O que o desvio mediano de 1 m mostra é que a esmagadora maioria dos pares não está no limite: está em cima um do outro.
O mesmo teste ao contrário: 19 aerogeradores constam do registo da DGEG e não têm equivalente nenhum no OpenStreetMap. A explicação mais provável é construção recente — as imagens de satélite disponíveis aos voluntários chegam com atraso, às vezes de mais de um ano. Aparecem no mapa a cor-de-rosa, com a etiqueta a dizer exatamente isso: constam do registo oficial, ainda não foram vistos por uma segunda fonte.
A mesma ideia um andar acima. Cada parque do OSM é ligado a um parque da DGEG — pela contagem de quantos dos seus aerogeradores coincidiram e sob que nome — e ao registo e2p do INEGI, por proximidade e tipo. Os que não têm confirmação independente assentam apenas no OSM, e a ficha do mapa di-lo.
Esta é uma pergunta diferente, e responde-se com geometria. A APA publica a área de estudo de cada projeto. Pergunta-se então: existe algum aerogerador ou bloco solar licenciado pela DGEG dentro desse polígono?
Uma obra a meio lê-se como por construir. É uma inferência, não uma certidão — e está declarada como tal no mapa.
Uma vez por semana, no servidor, sempre pela mesma ordem: recolher a geometria e as etiquetas do OpenStreetMap; recolher o registo de licenciamento da DGEG; recolher o e2p do INEGI; cruzar tudo e medir os desvios; recolher as áreas de estudo da APA; determinar o que está construído; recolher as áreas ardidas de 2011 a 2025; escrever um único ficheiro de dados.
Cada passo reescreve o seu próprio resultado — nada se acumula, nada fica para trás de uma semana anterior. O mapa não faz contas: limita-se a desenhar esse ficheiro. Última reconstrução: —.
A lista completa das limitações do mapa — a camada da APA que pára no processo n.º 3762, os contornos que são invólucros convexos dos aerogeradores e não limites legais, as linhas e subestações que não constam do registo de centrais — está no fim da própria página do mapa.
Nada disto depende de acesso privilegiado. Os quatro registos estão abertos a qualquer pessoa — é por isso que os endereços ficam aqui. Quem quiser refazer o cruzamento, com outra tolerância ou outra área, chega aos mesmos números.