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PSZAER · Guia rápido

Quem decide, o quê e quando —
o processo em linguagem simples

O que está em causa envolve algumas siglas — PSZAER, EMER 2030, ZAER — e várias fases. Esta página explica, em poucos minutos, o que cada uma significa, quem está realmente a decidir (é o Governo português, não a União Europeia) e por que razão a sua objeção ainda conta.

O plano

O que é o PSZAER

PSZAER = Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis.

É um plano de âmbito nacional que desenha, no mapa do território continental, as «zonas de aceleração» (as ZAER) — as áreas onde os projetos solares e eólicos passam a ter licenciamento acelerado, com menos obstáculos. Uma dessas zonas cai sobre a Serra da Gardunha.

É um documento: regras, orientações e mapas. Foi ordenado pelo Governo através do Despacho n.º 1532-B/2026, de 6 de fevereiro de 2026, com um prazo de seis meses para ficar pronto.

Quem o fez

O que é a EMER 2030

EMER 2030 = Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030.

É uma estrutura de missão — no sistema administrativo português, uma equipa/tarefa temporária criada pelo Governo para tratar de um único assunto durante um período limitado, fora dos ministérios permanentes. A sua missão é acelerar o licenciamento das energias renováveis, em linha com as metas energéticas e climáticas de Portugal para 2030.

Foi à EMER 2030 que o Governo entregou o trabalho de escrever o PSZAER e de conduzir a consulta — recolher os pareceres e redigir as respostas.

A confusão mais comum

EMER 2030 vs. PSZAER — qual é a diferença?

Uma é quem; a outra é o quê. A EMER 2030 escreveu o PSZAER — como um autor e o seu livro.

 EMER 2030PSZAER
O que éUma equipa do Governo (estrutura de missão)Um plano setorial (documento)
CategoriaUma organização — pessoasUm documento — regras e mapas
PapelO autor — escreve, conduz a consulta e pondera as objeçõesO objeto em consulta — desenha as zonas, incluindo sobre a Gardunha
Face a isto, você……critica o facto de ser juiz do seu próprio trabalho…apresenta a sua objeção na consulta pública

Em resumo: o Governo ordenou um plano → encarregou a EMER 2030 (a equipa) → esta escreveu o PSZAER (o plano) → o PSZAER desenha zonas sobre a Serra da Gardunha → é a isso que você se opõe, e é a EMER 2030 quem lê a sua objeção.

Quem decide

É o Governo português — não a União Europeia

Todo este processo é nacional. Não há Comissão Europeia, nem instituição da UE, a decidir sobre a Gardunha. Quem determina, escreve e pondera é o Estado português, através da EMER 2030, no quadro do Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT).

E há um pormenor que importa: na fase institucional, as entidades consultadas são também o Estado. O ICNF (natureza), o Património Cultural (património), a DGADR (agricultura), a APA, a DGEG — são todos organismos da administração central, cada um sob o seu ministério. Ou seja, um braço do Governo (a EMER 2030) consultou por escrito outros braços do próprio Governo. Os municípios e a ANMP (a sua associação) são a exceção — poder local, eleito e mais independente.

Há, ainda assim, uma nuance que reforça a causa — não a enfraquece. A obrigação de criar «zonas de aceleração» vem da União Europeia: a diretiva europeia das renováveis (RED III, Diretiva (UE) 2023/2413) exige que cada Estado-Membro designe áreas de licenciamento acelerado. Só que a UE nunca escolheu a Gardunha — onde ficam as zonas é decisão de Portugal. E a mesma diretiva manda excluir a Rede Natura 2000 e as paisagens protegidas, e fazer uma avaliação ambiental séria. Em suma: Bruxelas exige zonas; foi Lisboa que decidiu pô-las na serra — e podia, com a mesma legitimidade, deixá-la de fora.

As próprias palavras do Governo

Não é a campanha que o diz — está na Avaliação Ambiental Estratégica do próprio Governo. O relatório preliminar (p. 99) inclui, entre os fatores que travam a «aceleração», «a oposição de comunidades que legitimamente recusam a existência de grandes projetos na sua proximidade». E o Resumo Não Técnico repete: «a legítima resistência da comunidade local pode dificultar a aceleração». A mesma avaliação conclui que os grandes projetos concentrados são a pior opção — os benefícios são maiores «com menor escala, maior proximidade e ligação ao consumo local». Ou seja: pôr uma central gigante na serra é, pelas próprias contas do Governo, o caminho errado.

Como funciona

As fases do processo

Não houve nenhuma reunião nem audiência. Os «pareceres» são opiniões escritas, submetidas eletronicamente numa plataforma do Governo (a PCGT). Cada entidade teve 20 dias para responder — e, por lei, o silêncio conta como «nada a opor».

1

Encomenda

O Governo determina o PSZAER e entrega-o à EMER 2030 (Despacho n.º 1532-B/2026).

6 fev 2026
2

Consulta institucional

A EMER 2030 escreve às entidades públicas (ICNF, Património, DGADR, municípios…), que respondem por escrito em 20 dias. Várias emitem pareceres desfavoráveis ou condicionados.

a partir de 5 mai 2026 · concluída
3

Ponderação dos pareceres

A EMER 2030 compila os pareceres e escreve as suas respostas, aceitando a maioria só «em parte» ou limitando-se a «registá-las». É o documento resumido na página O que disseram as entidades oficiais.

23 jun 2026
4

Discussão pública — a sua vez

Agora qualquer cidadão pode apresentar a sua objeção no participa.pt. A EMER 2030 terá de ponderar estes contributos de forma autónoma após o fim do período.

17 jun → 15 jul 2026
Duas rondas de «objeções»

A palavra «objeção» refere-se a duas coisas diferentes

É aqui que quase toda a gente se perde. Há duas fases distintas em que se apresentam objeções — a primeira já fechou; a segunda está a decorrer e é a sua.

 Fase 1 — institucionalFase 2 — discussão pública
Quem objeta~36 entidades públicas (ICNF, Património, municípios, CCDR…)Cidadãos — você, vizinhos, qualquer pessoa
ComoParecer escrito na plataforma PCGT, prazo de 20 diasObjeção submetida no participa.pt
QuandoJá fechou (consulta a partir de 5 mai 2026)17 jun → 15 jul 2026
Quem lê e respondeEMER 2030 (já concluído)EMER 2030, de novo, após 15 jul
O ponto que importa

Quem se opôs na Fase 1 não foram ativistas nem ONG — foram os próprios organismos do Estado encarregados de proteger o património, os solos e a natureza. Ainda assim, a EMER 2030 aceitou a maioria só «em parte» ou limitou-se a «registá-las». Quando até os peritos do próprio Governo são arquivados como «registado», a Fase 2 — a sua objeção — enfrenta a mesma ponderação. Por isso o número de contributos conta.

Em uma frase

O que a campanha combate

A «Salvar a Gardunha» combate o PSZAER (o plano) e as zonas que ele desenha sobre a serra. A EMER 2030 é apenas o gabinete por detrás dele — e, ao ser em simultâneo o autor do plano, o recetor das objeções e o juiz que decide quais aceitar, não é um árbitro independente. A consulta pública é a próxima — e melhor — oportunidade de a voz dos cidadãos entrar nessa ponderação.

O mapa oficial do Governo

Isto é o plano — e a Gardunha está no meio

Cada mancha é uma zona onde o Governo quer acelerar centrais renováveis. O interior centro é a área mais coberta do país. A Serra da Gardunha e o maciço de Castelo Branco estão no coração dessa mancha.

Mapa oficial das zonas de aceleração de energias renováveis (ZAER) em Portugal.
Zonas solares Zonas eólicas
Fonte: Proposta PSZAER — Relatório Temático de Integração de Informação Espacializada (LNEG / EMER 2030), Figura 39. Assinalação nossa.
O que está a acontecer

7% do país aberto a centrais — sem avaliação ambiental

O Governo pôs em consulta pública o PSZAER — o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis. Nas palavras do próprio resumo, o processo “deixou disponível para aceleração cerca de 7% do território nacional continental”, onde os projetos podem ser licenciados “sem passarem pela avaliação de impacte ambiental (AIA)”.

Dentro destas zonas, a avaliação ambiental é substituída por um simples “subprocedimento de verificação” e por uma “janela única” com prazos apertados. O potencial mapeado é enorme: ~578 777 ha para solar e ~84 618 ha para eólica. E não são telhados — 78,9% da área de potencial solar é espaço florestal.

A consulta pública decorreu até 15 de julho de 2026 e recebeu 8 053 contributos.

Porque é a NOSSA serra o alvo

A Beira Baixa é a região #1 do país para solar

57 758 ha

de zonas solares na Beira Baixa — 11% de toda a região, a maior percentagem de qualquer região de Portugal. Mais 19 295 ha para eólica. Só o concelho do Fundão soma ~6 237 ha de solar e ~4 947 ha de eólica.

Potencial solar ZAER por grupo de paisagem

Grupo de Unidades de Paisagem (GUP)Solar (km²)Área do grupo (km²)% do grupo
Pinhal do Centro← inclui a Gardunha1 371,824 014,8634,17%
Beira Alta1 201,227 922,2415,16%
Beira Litoral528,334 445,9911,88%
Ribatejo734,007 428,939,88%
Beira Interior613,817 317,978,39%
Estremadura – Oeste179,772 159,818,32%
Área Metropolitana do Porto62,38846,257,37%
Alentejo Central425,836 358,376,70%
Maciço Central138,142 075,206,66%
Entre Douro e Minho417,626 370,966,56%
Terras do Sado296,064 812,826,15%
Alto Alentejo207,194 144,515,00%
Maciços Calcários da Estremadura95,032 178,884,36%
Baixo Alentejo261,947 209,853,63%
Serras do Algarve e do Litoral Alentejano179,835 310,683,39%
Trás-os-Montes218,428 315,712,63%
Montes Entre Larouco e Marão39,282 089,421,88%
Ribatejo; Área Metropolitana de Lisboa – Norte1,4586,271,68%
Área Metropolitana de Lisboa – Norte8,96644,441,39%
Área Metropolitana de Lisboa – Sul10,85786,481,38%
Douro20,231 933,191,05%
Área Metropolitana do Porto + Douro0,2134,460,60%
Algarve1,291 639,940,08%

O grupo “Pinhal do Centro” — onde os consultores incluem a Gardunha — lidera o potencial solar do país, com 34% da sua área. Fonte: Relatório de Paisagem do PSZAER, Tabela 1.

“É por isso natural que as áreas territoriais sobrantes sejam as que têm menores valores atuais de qualidade de paisagem.” — Relatório de Paisagem do PSZAER, sobre o interior. Ou seja: tratam a nossa terra como o “sobrante” do país. Não é.
O que está em risco

Mantos de vidro sobre a serra

Como chegámos aqui

Cronologia

Todas as datas vêm dos documentos oficiais. Repara em quanto tempo o processo levou — e em quão pouco tempo nos deram para responder.

6 de fevereiro de 2026
O Governo manda fazer o PSZAER
O Despacho n.º 1532-B/2026 encarrega a EMER 2030 de preparar o programa, com seis meses para concluir tudo.
Fevereiro – março de 2026
Define-se o âmbito da avaliação ambiental
As entidades com responsabilidades ambientais são ouvidas sobre os «Fatores Críticos para a Decisão» — o que a avaliação vai, e não vai, analisar.
2 – 5 de maio de 2026
Saem a proposta, a avaliação ambiental e os 6 relatórios temáticos
O Relatório de Paisagem nomeia expressamente as «Serras da Gardunha, Alvelos e Moradal» dentro do grupo mais visado do país (~34% da área). O Relatório de Energia conclui que o travão não é a falta de terreno — é a rede.
5 de maio de 2026
As entidades públicas são consultadas — 20 dias para responder
Câmaras, CCDR, ICNF, APA, Património Cultural e agricultura recebem centenas de páginas técnicas. Quem não responder em 20 dias considera-se que nada tem a opor.
16 de junho de 2026
Os pareceres: quatro entidades dizem NÃO
Desfavoráveis: Património Cultural, Agricultura (DGADR), a Associação Nacional de Municípios (ao conteúdo e ao processo) e um município. O ICNF exige a remoção das áreas que se sobrepõem à faixa de 1 km em redor da Paisagem Protegida Regional da Serra da Gardunha.
17 de junho de 2026
Abre a consulta pública
Anunciada pelo Aviso n.º 14136-B/2026/2. Menos de um mês para os cidadãos lerem e responderem a mais de mil páginas.
23 de junho de 2026
O Governo pondera os pareceres — e a maioria fica pelo caminho
Dos 172 contributos, 45 são apenas «registados» (não mudam nada) e 62 só «parcialmente acolhidos». A crítica da Direção-Geral do Território — de que as zonas são muito maiores do que as metas exigem — fica «registada». A exigência do ICNF sobre a Gardunha nem sequer é mencionada. Vê as 172 e as respostas →
15 de julho de 2026
Terminou a consulta pública — 8 053 contributos
Encerrou com 8 053 contributos submetidos. Por lei, todos têm de ser considerados no relatório de ponderação do Governo.
Julho – agosto de 2026
O Governo analisa os contributos e fecha a proposta
Segue-se o processo legislativo. Depois disto, discutir deixa de ser uma opção.